Canguçu, quinta-feira, 23 de abril de 2026
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Transição climática acelera e eleva chance de El Niño nos próximos meses

Fenômeno pode atingir alta intensidade até o fim do ano, com impactos no regime de chuvas


O Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (CIEX) divulgou uma nova nota técnica atualizando o cenário de probabilidade de formação do fenômeno El Niño. O documento revisa as projeções apresentadas no mês anterior e aponta uma transição acelerada das condições climáticas globais, com o encerramento oficial do La Niña e avanço consistente do aquecimento no Pacífico Equatorial.

De acordo com dados de centros internacionais de monitoramento climático, há cerca de 90% de chance de o El Niño já estar ativo entre agosto e outubro deste ano, podendo alcançar até 93% de probabilidade no último trimestre. A mudança é impulsionada pelo aquecimento progressivo das águas superficiais do oceano, especialmente nas regiões próximas à costa da América do Sul.

A atualização acende um alerta especial para a região Sul do Brasil, em particular o Rio Grande do Sul, onde os efeitos típicos do fenômeno incluem aumento significativo das chuvas e maior risco de eventos hidrológicos extremos.

Nova metodologia amplia precisão do diagnóstico

A nota técnica também destaca uma mudança relevante na forma de monitoramento das condições oceânicas. Tradicionalmente, a intensidade dos fenômenos era medida pelo Índice Oceânico Niño (ONI), baseado na temperatura da superfície do mar em uma área específica do Pacífico.

No entanto, o aquecimento global acumulado nas últimas décadas passou a interferir nesse cálculo, gerando distorções. Para corrigir essa limitação, cientistas adotaram o Índice Relativo Oceânico Niño (RONI), que desconta o aquecimento médio global e permite uma leitura mais precisa das anomalias térmicas.

Com essa nova metodologia, foi possível identificar que os últimos anos ainda mantinham características de La Niña, contrariando parte das leituras anteriores. Agora, o RONI também evidencia com maior clareza o avanço do aquecimento que caracteriza o El Niño.

Risco de evento forte aumenta

As projeções mais recentes indicam mais de 50% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade forte no último trimestre de 2026. Há ainda cerca de 25% de chance de ocorrência de um evento muito forte, com anomalias térmicas mais extremas.

Esse cenário é sustentado por fatores como o aquecimento contínuo das águas subsuperficiais do Pacífico e alterações nos padrões de vento na faixa equatorial, que favorecem o acúmulo de calor. Caso essas condições persistam ao longo do inverno no Hemisfério Sul, a tendência é de intensificação do fenômeno.

Planejamento e prevenção são essenciais

Diante do aumento consistente das probabilidades, o CIEX reforça a necessidade de antecipação nas estratégias de gestão de risco. Embora previsões climáticas de longo prazo apresentem limitações, o cenário atual já oferece base suficiente para ações preventivas.

A recomendação é que órgãos públicos, Defesa Civil e setores produtivos revisem seus planos de contingência e preparem a infraestrutura para possíveis eventos extremos. A orientação é agir com base no cenário probabilístico, sem aguardar a confirmação de episódios críticos.

O documento também ressalta que o El Niño não atua isoladamente. Outros fatores, como o aquecimento do Atlântico Sul e variações atmosféricas de grande escala, podem influenciar seus efeitos, intensificando ou reduzindo impactos. Por isso, o monitoramento contínuo segue sendo fundamental.