Crônica: Último dia — quando o tempo pede silêncio e esperança
No encerramento do ano, o jornalista Luiz Almeida reflete sobre 2025, o ofício do jornalismo, as memórias que não viram manchete e a delicada arte de seguir humano diante do tempo que passa
O último dia do ano não chega com estrondo. Ele se aproximou em silêncio, como quem observa de longe o que fizemos com o tempo que nos foi confiado. Não trouxe respostas prontas, apenas perguntas incômodas. O que aprendemos? O que ignoramos? E, sobretudo, o que deixamos de sentir enquanto corríamos para chegar a lugar nenhum?
Vivemos tempos apressados, mas não profundos. Acumulamos informações e perdemos sentidos. Falamos muito e escutamos pouco. O calendário muda, mas a alma — essa quase sempre permanece atrasada. O fim do ano escancara essa defasagem entre o que somos e o que poderíamos ter sido.
Penso em Drummond quando dizia que o tempo é matéria viva. Ele não passa — atravessa. E ao atravessar, leva consigo aquilo que não cuidamos. 2025 foi assim: um ano que pediu mais do que recebeu. Um ano de notícias duras, de aprendizados forçados, de realidades que não cabiam em títulos. Um ano que ensinou, à sua maneira severa, que nem tudo se resolve com pressa e nem toda dor se cura com palavras.
No jornalismo, aprendemos a narrar o mundo enquanto tentamos compreendê-lo. Contamos histórias de despedidas e de começos, de perdas irreparáveis e de pequenos milagres cotidianos. Mas há um tipo de notícia que nunca publicamos: aquela que acontece dentro de nós. As dúvidas que amadurecem, os medos que se calam, as esperanças que resistem mesmo cansadas.
O último dia do ano é um espelho. Nele, vemos não apenas o que fizemos, mas o que deixamos de fazer por medo, orgulho ou distração. E talvez seja esse o seu maior valor: nos lembrar que ainda há tempo — não para corrigir o passado, mas para escolher diferente no futuro. Começar um novo ano não é apagar erros. É carregar as marcas com mais consciência. É entender que não precisamos ser extraordinários, apenas mais humanos. Mais atentos. Mais gentis.
Que o próximo ano não venha como promessa grandiosa, mas como exercício diário. Que a gente fale menos em mudanças e pratique mais presença. Que saiba silenciar quando o mundo grita e agir quando a indiferença tenta vencer.
E se for verdade, como escreveu Guimarães Rosa, que “o real não está na saída nem na chegada, mas no meio da travessia”, então sigamos. Imperfeitos, mas atentos. Cansados, mas inteiros.
O ano termina. A vida continua. E isso, por si só, já é um recomeço.