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Geisa Coelho: A poesia no trabalho

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Beremiz Samir, personagem de Malba Tahan, do livro “O homem que calculava” (1938), treinou muito e desenvolveu o dom da contemplação e a habilidade de contar. Embora a matemática seja uma ciência “exata”, Beremiz não deixou de contar pássaros, abelhas, formigas, contrapondo-se à mera exatidão.

Após trabalhar por dez anos contando tâmaras, o patrão presenteou a precisão do contador com direito a férias. Foi então que o calculista persa desejou conhecer Bagdá e, durante a viagem, exercitou-se contando a natureza.

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Trabalho semelhante exercia o Acendedor de Lampiões, de Saint Exupéry, do livro “O Pequeno Príncipe” (1943), que passava o dia acendendo e apagando lampiões que iluminavam seu pequeno planeta à noite. O Acendedor desenvolvia a atividade tão mecanicamente que deixou de contemplar a beleza dos pores do sol produzidos a cada minuto porque vivia cansado, preso a regulamentos que o escravizavam e o impediam de ver a beleza do ofício.

No dia a dia, ou buscamos razões para tornar o trabalho prazeroso, como Beremiz soube fazer, ou deixaremos de contemplar a beleza e a poesia expressa na atividade e, como o Acendedor de Lampiões, corremos o risco de torná-la enfadonha e reduzirmo-nos a máquinas tristes.

Nós não somos Sísifo que errou e despertou a ira de Zeus sendo castigado com trabalho eterno. Tampouco devemos trabalhar como quem cumpre punição, mas como alguém que entende que o trabalho é necessário para dar sentido à própria existência. Além disso, temos o direito e o dever trabalhar e buscar nele a poesia e a beleza do ofício entendida pela cidadania e pelo coração.

Prezado leitor, tua relação com o trabalho assemelha-se a história de Beremiz, a do Acendedor de lampiões, ou de Sísifo?

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