Márcia Guerra da Cunha afirma: “Integrar a Acandhis significa assumir um compromisso com a história de Canguçu”
Em entrevista exclusiva ao Canguçu Online, a nova integrante da Academia Canguçuense de História assume a Cadeira 34, do Coronel Cláudio Moreira Bento, presidente emérito, destacando a importância de transformar conhecimento em pertencimento
Em entrevista exclusiva ao Canguçu Online, a educadora e pesquisadora Márcia Guerra da Cunha compartilhou suas impressões após ser empossada como nova integrante da Academia Canguçuense de História (Acandhis). Ela passa a ocupar a Cadeira 34, cujo patrono é o Coronel Cláudio Moreira Bento, presidente emérito da entidade. Márcia destacou a emoção e a responsabilidade de assumir um espaço que carrega o legado de uma das figuras mais respeitadas da historiografia local, reafirmando seu compromisso em valorizar a memória de Canguçu e fortalecer o registro das trajetórias, tradições e instituições que moldam o município. Confira a entrevista:
Online: Márcia, como foi o momento da sua posse na Academia Canguçuense de História? O que representa para você integrar a Acandhis, uma instituição tão ligada à preservação da memória de Canguçu?
Márcia: O momento da minha posse na Academia Canguçuense de História foi profundamente emocionante e simbólico. Receber o convite para integrar a Acandhis, especialmente em um contexto tão singular — quando o Coronel Cláudio Moreira Bento, fundador da Academia, tornou-se Patrono em vida — representou, para mim, mais do que uma honra: foi um gesto de confiança e de reconhecimento de um caminho trilhado com dedicação à história de Canguçu.
Durante a cerimônia, vivi uma mistura de gratidão, responsabilidade e pertencimento. Estar ali, entre pessoas que dedicam suas vidas à valorização da nossa terra, fez-me sentir parte de algo maior e especial. Integrar a Acandhis significa, portanto, assumir o compromisso de continuar difundindo as histórias que moldaram Canguçu. É também uma forma de retribuir à comunidade tudo o que ela me ensinou, mantendo viva a chama da nossa cultura, das nossas instituições e das trajetórias humanas que constituem o patrimônio histórico local.
Online: A senhora passa a ocupar a Cadeira 34, que tem como patrono o Coronel Cláudio Moreira Bento, presidente emérito da Acandhis. Como foi a emoção de assumir um espaço que carrega o legado de uma figura tão importante para a história local e nacional?
Márcia: Assumir a Cadeira 34 da Academia Canguçuense de História, que tem como patrono o Coronel Cláudio Moreira Bento, foi uma experiência marcada por uma emoção profunda e um sentimento de reverência. O Coronel Bento não é apenas uma figura de destaque na história local — ele é um verdadeiro guardião da memória do Exército, do Rio Grande do Sul e, sobretudo, de Canguçu. Sua trajetória intelectual é uma inspiração para todos nós que trabalhamos com a preservação da história.
Online: Sua trajetória é marcada pela dedicação à educação. De que maneira essa vivência como professora, gestora e pesquisadora dialoga com o trabalho da Academia e com o estudo da história de Canguçu?
Márcia: Minha trajetória na educação sempre esteve entrelaçada com a história e com o desejo de compreender e valorizar as raízes da nossa comunidade. Como professora, gestora e pesquisadora, aprendi que educar é também preservar memórias — é formar cidadãos conscientes do seu lugar no mundo e do legado recebido por eles. Creio que essa vivência dialoga com o trabalho da Academia Canguçuense de História, pois tanto a escola quanto a Acandhis compartilham a missão de manter viva a memória coletiva e de transformar conhecimento em pertencimento.

Online: Canguçu é um município de fortes tradições e rica trajetória histórica. Quais aspectos da nossa história a senhora considera que ainda merecem mais valorização e registro?
Márcia: Canguçu possui uma história muito rica, mas ainda há muitos capítulos que merecem maior valorização e registro. Acredito que um desses aspectos que merecem aprofundamento é a história cotidiana — aquela construída pelas pessoas comuns, pelas famílias, pelas comunidades do interior, pelos professores, artesãos, agricultores e lideranças locais que ajudaram a moldar o município com seu trabalho e suas crenças.
Também considero fundamental dar mais visibilidade ao papel das mulheres na formação cultural, educacional e social de Canguçu, pois muitas delas contribuíram de forma decisiva, ainda que pouco registradas nos documentos oficiais. Além disso, há um campo fértil de pesquisa sobre a relação entre as instituições educacionais (algo que me dedico a pesquisar hoje), as associações culturais e os movimentos sociais — espaços que foram decisivos para a construção da identidade canguçuense. Valorizar e registrar essas histórias é, acima de tudo, reconhecer que a grandeza de Canguçu não está apenas em seus feitos mais conhecidos, mas também nas trajetórias silenciosas que, juntas, formam a história do nosso município.
Online: A senhora também é doutoranda em História da Educação pela UFPel. Como essa formação pode contribuir para a preservação da memória educacional do município?
Márcia: Cursar doutorado em Filosofia e História da Educação pela UFPel, tem me permitido olhar para a trajetória educacional de Canguçu com um olhar mais amplo, crítico e sensível. A pesquisa acadêmica oferece instrumentos teóricos e metodológicos que ajudam a compreender a escola não apenas como espaço de ensino, mas como instituição social, política e cultural — profundamente conectada à identidade da comunidade onde se insere. Atualmente, meu objeto de pesquisa é o ensino secundário em Canguçu (escola ETEC, especificamente). Por meio dessa formação, busco contribuir para que a história da educação de Canguçu seja registrada e analisada de forma sistemática, valorizando documentos, memórias orais e experiências que, muitas vezes, permanecem dispersas ou esquecidas. Preservar essa história significa reconhecer o papel das escolas, dos professores e dos alunos na construção do desenvolvimento local e das transformações sociais ao longo do tempo.
Assim, o doutorado representa mais do que um percurso acadêmico — é uma forma de retribuir à comunidade o conhecimento que dela surgiu.
Online:Quais são suas expectativas e objetivos como nova integrante da Acandhis? Há alguma linha de atuação ou projeto que pretende desenvolver dentro da Academia?
Márcia: Minhas expectativas ao integrar a Acandhis estão ligadas ao desejo de contribuir para o fortalecimento da pesquisa histórica local de Canguçu. Vejo na Academia um espaço de diálogo, de construção coletiva e de valorização das histórias que nos definem como comunidade. Pretendo atuar de forma colaborativa, somando esforços com os demais acadêmicos com quem tenho muito a aprender, para ampliar a visibilidade das pesquisas e aproximar a história das pessoas.
Com relação aos meus objetivos, gostaria de seguir estudos voltados à história da educação canguçuense — resgatando trajetórias de escolas, professores e movimentos que ajudaram a formar social, cultural e economicamente do município. Assim, desejo que minha atuação na Acandhis seja marcada por um trabalho que possa continuar dando voz à história de Canguçu e inspirando novas gerações a cuidar da memória que nos une.