Canguçu, sexta-feira, 6 de março de 2026
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“A arte nos devolve a sensibilidade que a rotina endurece”, diz Dhiule Völz

Com atuação no teatro, cinema e audiovisual, Dhiule compartilha sua jornada e reflete sobre o papel da arte em Canguçu


Com uma trajetória marcada pela dedicação ao palco e à formação de novos artistas, Dhiule Völz é atriz, professora e diretora da Voejo Companhia de Teatro. Natural de Canguçu, ela tem levado sua arte para diferentes públicos e projetos, sempre com olhar sensível e comprometido com o fazer teatral.

Nesta sexta-feira, dia 20, ela comanda a “Oficina de Teatro Livre”, que integra a programação dos 168 anos do município. Conversamos com Dhiule sobre sua trajetória, a construção da companhia, os desafios da cultura local e o poder transformador do teatro.

Confira a íntegra da entrevista exclusiva que ela concedeu ao Canguçu Online:

Online: Dhiule, para começarmos, conta um pouco da tua trajetória: como surgiu o teu envolvimento com o teatro e como isso se transformou em pesquisa e missão de vida?

Dhiule: Hoje eu vejo que o “ser atriz” foi algo presente desde sempre na minha vida. Sou uma pessoa noveleira, a primeira novela que fui fã foi “O Clone” em 2002: pegava a toalha de banho, amarrava no cabelo e saía dançando pra imitar a Jade.

Fui crescendo com esse sonho até que em 2013, entrei pro Grupo TITA aqui em Canguçu, onde pude desenvolver esse estudo de uma forma mais séria e coletiva. Quando o grupo chegou ao fim, fiquei um tempo afastada, mas é como diz aquela frase que sempre repito: “quando a gente nasce para a arte, ela dá um jeito de nos trazer de volta”.
Sinto falta de ter teatro na nossa cidade, de ir ao teatro ver teatro, de ver as pessoas daqui sabendo que podem exercer essa função, mesmo que seja só uma atividade de lazer. Esse incômodo me moveu para que eu trouxesse para cá e compartilhasse com as pessoas tudo o que aprendi até aqui — e sigo aprendendo. Quero deixar uma sementinha plantada nessa cidade.

Foto: Arquivo Pessoal

Online: Tu és diretora da Voejo Companhia de Teatro. Como nasceu a Voejo e o que ela representa hoje dentro do teu percurso artístico?

Dhiule: A Voejo começou com a ideia de oferecer aulas de teatro na cidade, para ter uma renda extra, mas também estar em contato com o teatro sem precisar sair daqui e ir até Pelotas. Queria ensinar técnica a quem quisesse aprender, visando uma peça teatral para apresentar no fim do ano. Depois que fechei duas turmas, senti a necessidade de descentralizar essa imagem de mim, individualmente, e trazer o holofote para o grupo, porque são eles as estrelas da companhia.

Eu aprendo demais com eles. Ensinar é novidade para mim, porque minha formação até então é como atriz profissional (estou cursando licenciatura). Então, cada encontro é um aprendizado e isso cria uma bagagem imensa para minha carreira.

Online: Nesta sexta-feira, tu ministras a Oficina de Teatro Livre no Cine Teatro, dentro da programação dos 168 anos de Canguçu. Qual é o propósito dessa oficina e que tipo de experiência tu esperas proporcionar aos participantes?

Dhiule: O propósito é trazer mais pessoas para a companhia (abriremos novas turmas em julho), mas também proporcionar para os canguçuenses a oportunidade de experimentar o teatro de uma forma mais leve, percebendo que qualquer um pode fazer teatro mesmo se for tímido, sem a tensão de entrar para companhia ou não e, claro, de forma gratuita.

Foto: Thalles Echeverry

Online: Como tu vês a presença e o papel do teatro — e da arte em geral — nas comemorações do aniversário do município? Que importância tu atribuis a esses espaços na agenda cultural local?

Dhiule: Acho que todas as formas de arte são extremamente essenciais em qualquer lugar, mas principalmente em uma cidade formada por pessoas que trabalham muito. Quando a gente não abre espaço para sutileza da arte, acaba ficando rígido demais e deixando de perceber os sentimentos e as relações humanas. Na semana do município senti bastante falta da diversidade artística que temos aqui, como música, dança, artesanato. Temos uma gama gigante de artistas para absolutamente todos os gostos e percebo que falta falar sobre eles.

Online: A cultura em Canguçu tem uma base rica, mas também enfrenta muitos desafios. Na tua visão, o que ainda pode ser melhorado para fortalecer o setor cultural no município?

Dhiule: A forma de pensar das pessoas. Nós temos a tendência de valorizar só o que está fora daqui, como se a grama do vizinho fosse sempre mais verde. A verdade é que o vizinho compra o adubo da grama!

Se a comunidade local não apoia e admira os artistas daqui, não divulga, não contrata e não paga pelo trabalho deles, esses artistas nunca serão reconhecidos ou, se forem, vão embora sem pensar duas vezes. Não fizemos arte pelo aplauso, mas é o aplauso que nos impulsiona e nos faz ser vistos.

Online: E quais são os potenciais que tu enxerga na nossa terra? O que Canguçu tem de único quando o assunto é produção artística e cultural?

Dhiule: Nossa cidade é muito bonita e tem uma diversidade cultural que não é muito explorada ainda. Essas diferentes culturas moldam artistas super singulares que, mesmo que tu goste de algum e eu não goste, vou encontrar outro que seja do meu agrado.

No campo da arte cênica que é o que posso opinar, sinto que temos muito a fazer ainda com o próprio teatro e o cinema. Os cenários já temos, é só olhar pra rua.

Online: Para finalizar, que mensagem tu deixas para quem tem vontade de experimentar o teatro, mas ainda não deu o primeiro passo?

Dhiule: Eu diria para ir sem pensar e depois que for, formar uma opinião. No teatro não existe certo e errado, tudo é possibilidade e forma de interpretar

A bagagem individual de cada ator é única e traz uma infinidade de expressões quando aplicadas a uma cena. Minha função é só guiar essa caminhada, porque o caminho é cada pessoa que escolhe.