Canguçu, sexta-feira, 6 de março de 2026
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Feminicídio: o crime que desafia as estatísticas e silencia vozes

Mesmo com indicadores de segurança em queda no RS, feminicídios crescem 10% e expõem falhas na rede de proteção que não evitou a morte de Letícia em Canguçu


Enquanto os números gerais da segurança pública no Rio Grande do Sul indicam uma queda nos crimes patrimoniais e homicídios dolosos, o estado enfrenta uma realidade alarmante no que diz respeito à violência de gênero. Dados apresentados nesta semana pelo governo estadual revelam que, ao contrário da tendência de redução em outros setores, os feminicídios cresceram 10% em 2025, saltando de 73 para 80 casos no último ano.

Esse aumento coloca em xeque a eficácia das ferramentas atuais diante de um crime que, em sua maioria, ocorre entre quatro paredes. Em Canguçu, essa estatística deixa de ser um número para se tornar uma dor coletiva com a morte de Letícia Foster Rodrigues, vítima de um crime que mobiliza a cidade em um clamor por justiça.

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O abismo entre a tecnologia e a realidade

No Rio Grande do Sul, o Estado tem investido em mecanismos como a Medida Protetiva de Urgência (MPU) online, que facilitou o registro de 2.558 pedidos via celular, e o monitoramento eletrônico, que hoje acompanha cerca de 460 agressores. No entanto, o caso de Letícia e o crescimento das mortes evidenciam que a tecnologia sozinha não é capaz de conter o agressor determinado.

O caso de Letícia expõe uma ferida aberta na eficácia das medidas de proteção. O suspeito do crime, identificado como William Bizarro Porto, 36 anos, já possuía um histórico conhecido de violência doméstica. No início de 2025, a vítima chegou a registrar uma ocorrência por lesão corporal, relatando ter sido ferida no braço com uma faca pelo investigado.

Mesmo com a solicitação de medidas protetivas de urgência, o sistema não foi capaz de frear a agressividade do homem, que descumpriu as ordens judiciais reiteradas vezes. Segundo o delegado Luciano Cabreira, responsável pelo caso, o suspeito chegou a ser preso entre março e agosto do ano passado justamente por desrespeitar essas medidas.

Em fevereiro de 2025, o Estado autorizou a abertura de novos concursos para contratação de servidores das corporações vinculadas à Secretaria da Segurança Pública. Uma iniciativa que sinaliza a intenção de reforçar a segurança. Mas quase indiferente quando criminosos parecem não mais se intimidar com a presença policial ou com o peso da lei, agindo dentro dos lares com uma brutalidade que nenhum edital consegue prever.

Relembre o caso

  • O crime: O corpo de Letícia Foster Rodrigues, de 37 anos, foi localizado na tarde da última terça-feira (13) em uma área de mata na zona rural de Canguçu.

  • Causa da morte: A perícia identificou um corte no pescoço da vítima.

  • A prisão: O principal suspeito, William Bizarro Porto, foi preso em flagrante na manhã do mesmo dia (13) por tráfico de drogas na cidade de Bagé.

  • Pedido de preventiva: Com a localização do corpo e o avanço das provas, a Polícia Civil formalizou o pedido de prisão preventiva contra o investigado pelo crime de feminicídio.