EDITORIAL: Canguçu diante de uma violência que insiste em se repetir
O feminicídio de Letícia expõe um ciclo de violência que atravessa décadas e remete a crimes emblemáticos como os de Maiara Kohler e Jaine Centeno, entre tantos outros silenciados pelo tempo
O primeiro feminicídio registrado em Canguçu em 2026 não pode ser tratado como um episódio isolado. O caso de Letícia, de 37 anos, rompe o silêncio e evidencia uma realidade que acompanha o município há anos. Ao olhar para trás, percebe-se que a violência contra mulheres não surgiu agora — ela continua a se manifestar de forma extrema.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que, no Brasil, quatro mulheres são assassinadas diariamente em crimes motivados por gênero. Outras tantas sobrevivem a tentativas de feminicídio todos os dias. Em sua maioria, os agressores são homens do convívio íntimo das vítimas, geralmente companheiros ou ex-companheiros, o que transforma o ambiente doméstico em um espaço de risco.
Canguçu já enfrentou tragédias que permanecem na memória coletiva. Em 2012, a morte de Maiara Kohler, de 20 anos, chocou a comunidade após seu corpo ser encontrado em um matagal no distrito de Rincão dos Maias, com indícios de estrangulamento. Já em 2016, a adolescente Jaine Centeno, de apenas 16 anos, foi assassinada após desaparecer ao retornar sozinha para casa. O crime mobilizou centenas de moradores em uma passeata que pedia justiça e mais segurança para mulheres e meninas.
Esses casos não foram os únicos. Ao longo dos anos, outras ocorrências de violência contra mulheres também foram registradas no município. Os casos de Maiara, Jaine e agora, infelizmente, o de Letícia tornaram-se emblemáticos justamente por simbolizarem uma realidade persistente, que atravessa gerações e resiste ao passar do tempo.
Apesar dos avanços legais, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, os números nacionais seguem elevados. O Anuário aponta que, mesmo com legislação mais rigorosa, a violência letal contra mulheres não apresenta redução consistente, evidenciando falhas na prevenção, na proteção das vítimas e na responsabilização dos agressores.
O jornalismo tem o dever de ir além do registro factual. Cabe lembrar, contextualizar e questionar. Recontar essas histórias não é sensacionalismo, mas um exercício de memória e responsabilidade social. O esquecimento, neste contexto, também é uma forma de omissão.
Letícia é o caso mais recente. Maiara e Jaine são lembranças que o tempo não apagou. Juntas, elas representam tantas outras mulheres cujos nomes não chegaram às manchetes. Enfrentar essa realidade é urgente para que Canguçu e o Brasil deixem de contabilizar tragédias e iniciem, enfim, a construção de caminhos reais de prevenção, proteção e mudança.