Canguçu, sábado, 7 de março de 2026
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Doações para vítimas das enchentes eram desviadas e revendidas na Serra Gaúcha, aponta investigação do MP

Operação apura esquema que teria desviado roupas e utensílios enviados por entidades dos EUA e empresas da Serra; suspeitos teriam lucrado com a venda dos itens destinados a famílias atingidas pelas enchentes de 2024


O Ministério Público do Rio Grande do Sul, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRS), realizou nesta quinta-feira (4) a Operação Ascaris, destinada a investigar o desvio e a comercialização ilegal de donativos enviados dos Estados Unidos e de empresas da Serra gaúcha para auxiliar vítimas das enchentes de 2024. A força-tarefa cumpriu oito mandados de busca e apreensão em Caxias do Sul, São Marcos e Boa Vista do Sul, além de determinar o bloqueio de contas bancárias que somam R$ 2 milhões.

A ação é conduzida pelo promotor de Justiça Manoel Figueiredo Antunes, coordenador do 5º Núcleo Regional do GAECO – Serra, com apoio do Núcleo de Inteligência do MP e da Brigada Militar. Conforme as investigações, roupas e utensílios enviados para famílias desabrigadas foram repassados a uma ONG e, posteriormente, revendidos em brechós da região. Há indícios de enriquecimento ilícito a partir do uso de “laranjas” e recebimentos via Pix em nome de terceiros. Parte dos valores teria sido utilizada para a compra de veículos, um apartamento e outros bens pela principal investigada. Oito pessoas — três delas da mesma família — e uma pessoa jurídica são alvos da operação.

Balanço da operação

Durante as diligências, foram apreendidas 70 caixas com itens que deveriam ter sido distribuídos a famílias afetadas, incluindo roupas, fraldas, mamadeiras e escovas de dente. Após autorização judicial, o material será destinado à doação. Duas pessoas foram presas em flagrante por venda de medicamentos proibidos encontrados junto aos produtos.

Segundo o MP, os suspeitos podem responder pelos crimes de apropriação indébita, organização criminosa e lavagem de dinheiro, todos agravados pelo contexto de calamidade pública. A investigação começou após uma denúncia enviada ao Consulado-Geral do Brasil em Miami, que alertou a Defesa Civil estadual sobre a venda de roupas importadas — algumas de marcas reconhecidas — que deveriam ter sido encaminhadas a famílias atingidas. Com a apreensão de documentos, mídias e celulares, o objetivo agora é identificar outros possíveis envolvidos, apurar o volume total de recursos movimentados e verificar se houve desvio de doações em outras situações.

O promotor Manoel Figueiredo Antunes destacou que os investigados “se aproveitaram da dor das pessoas para obter vantagem patrimonial, chegando inclusive a divulgar ações solidárias durante as enchentes e, em um dos casos, receber reconhecimento público por isso”. Já o coordenador estadual do GAECO, promotor André Dal Molin, reforçou que a operação, realizada em parceria com a Defesa Civil, busca assegurar a responsabilização dos envolvidos e a recuperação dos bens desviados.