Canguçu, sexta-feira, 6 de março de 2026
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Carla Domingues: “Foi numa madrugada de insônia que assisti La Traviata e tudo mudou”

A artista canguçuense conversou com exclusividade com o Canguçu Online e falou sobre os desafios de sua carreira, experiências internacionais e o orgulho de representar sua cidade na ópera


A artista Carla Domingues, natural de Canguçu, construiu uma trajetória marcada pelo talento, disciplina e reconhecimento dentro e fora do país. Com formação sólida — Bacharel em Canto pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Mestre e atualmente Doutoranda em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) —, a artista consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da ópera brasileira contemporânea. Atuando como solista em importantes palcos do Brasil, Uruguai, Chile e Itália, Carla acumula papéis de destaque, experiências internacionais memoráveis e uma atuação relevante também no ensino do canto. Em entrevista exclusiva ao Canguçu Online, ela relembrou o início de sua carreira, os desafios do canto lírico e o orgulho de representar sua terra natal nos grandes palcos do mundo.

Online: Carla, você tem uma carreira consolidada no Brasil e no exterior. Como a sua origem em Canguçu influenciou o seu caminho na música e na escolha pelo canto lírico?

Carla: Por volta de 1998 eu fazia o trajeto Canguçu x Pelotas, pois estudava o segundo grau no colégio São José, lembro que numa madrugada de insônia, assisti na TV Cultura uma montagem da ópera “La Traviata”, de Verdi, e aquilo me marcou muito. Na mesma época iniciei aulas de canto, pois havia sido convidada para fazer uma gravação e a minha professora foi quem me sugeriu a prestar vestibular para o curso de Canto Lírico na UFPel, e assim foi.

Online: Sua trajetória inclui grandes papéis, como a Rainha da Noite e Zerbinetta, em montagens de peso. Qual desses personagens foi mais desafiador para você interpretar e por quê?

Carla: Zerbinetta, sem dúvida. A música de Richard Strauss, por si só, já é bastante complexa, e a escrita que ele fez para essa personagem explora além da complexidade musical, uma dificuldade técnica muito grande. São extremos de tessitura, notas muito agudas e escalas que nem sempre são óbvias dentro da harmonia. Fiquei cerca de 8 meses preparando esse papel, entre estudo da língua alemã, pronúncia, solfejo e preparo técnico, foi realmente bem intenso, mas um desafio pessoal cumprido.

Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

Online: Você já se apresentou em teatros renomados no Brasil, Uruguai, Chile e Itália. Qual foi a experiência internacional mais marcante até hoje?

Carla: Creio que a minha apresentação no Teatro Solis, em Montevidéu. Eu tinha uma estreita ligação com Montevidéu pois fazia aulas com uma soprano de lá, a Alba Tonelli, que foi, ao lado da Magali Richter, minha maestra de canto durante muitos anos. Então fiz muitas audições por lá e em 2011 fui chamada para cantar o papel de Amore, na ópera “Orfeu e Euridice”, de Gluck, e era uma produção da companhia catalã La Fura dels Baus, conhecida por trazer muito modernismo para as montagens operísticas. Então nessa montagem eu cantava minha primeira entrada do terceiro andar da sala do teatro, ao fundo da sala e saltava numa tirolesa até o palco, onde cantava toda a ária, pendurada ali. Foi surreal, uma preparação de 40 dias e uma experiência inesquecível.

Online: Além de solista, você também atua como professora de canto. Como essa vivência no ensino impacta sua própria performance nos palcos?

Carla: Aprendo muito dando aulas e é sempre uma troca constante. Tudo o que vivencio nos palcos eu passo aos alunos e vice-versa. Nem todos os cantores têm essa proximidade com o ensino do canto, mas pra mim é definitivamente algo muito natural.

Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

Online: Em 2018, você lançou um CD com obras de Carlos Gomes. O que esse projeto representou para a sua carreira e para a valorização da música erudita brasileira?

Carla:Foi um divisor de águas. Primeiro que gravar um CD com uma orquestra tão relevante quanto a Sinfônica de Campinas, sob a regência do Maestro Victor Hugo Toro, foi um privilégio. A obra de Carlos Gomes é imensa e ainda há várias peças que não foram gravadas, então nesse CD pudemos fazer isso. É um disco que se tornou referência e sou muito grata por fazer parte.

Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

Online: Olhando para o futuro, quais são os projetos ou papéis que você ainda sonha em interpretar e que gostaria de compartilhar com seus conterrâneos canguçuenses?

Carla: Acredito que em breve começarei a fazer uma mudança de repertório, a qual estou preparando com muito cuidado. A voz vai mudando e esse é um processo natural, então, aos poucos estou olhando para papéis mais líricos e dramáticos, mas esse também é um processo lento. Neste mês, dias 18, 19 e 24 estarei me apresentando em Porto Alegre, na estreia latino-americana da obra “Il Trionfo del Tempo e del Disinganno”, de Handel, com a Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul, interpretando o papel de Bellezza. Fica o convite para todos que puderem vir, pois será realmente lindo.